A Construção de Identidade em Panem

“- Não sei como explicar, exactamente. Apenas… quero morrer como eu próprio. Entendes? (…) Não quero que eles me mudem neste lugar. Que me transformem numa espécie de monstro que não sou.”

– Peeta Mellark, Os Jogos da Fome, Página 104

Existe sem dúvida um grande tema que atravessa esta trilogia e a identidade acaba por ser o que mais se destaca. Não só porque os protagonistas atravessam momentos marcantes de construção da sua identidade como adultos mas porque o mundo em que vivem tornam o processo mil vezes mais complicado. Existe uma luta natural de preservação de quem somos em detrimento do mundo em que vivemos na transformação para adultos. É por isso que os adolescentes sentem imensa revolta. Não são quem os outros dizem que são e tentam a tudo o custo lutar contra as expectativas e cometem actos absurdos e loucos. A revolta alimenta o tumulto interior que é colmatado por posições fortes e radicais que criam um ciclo e o perpetuam.

Ao pensar um pouco a fundo sobre a série acabei por perceber que para além do paralelo natural que existe e som o qual os adolescentes se podem relacionar, existe um outro paralelo mais inquietante. Vamos por partes..

A frase do Peeta, numa primeira fase parece aplicar-se apenas a ele. A protagonista não se revê nas palavras no momento imediato que as ouve mas ao analisarmos os seus pensamentos durante os livros percebemos que esta é a sua luta. A Katniss que se revia apenas no seu papel de caçadora secreta deixa de existir para se seguir numa sucessão de outras facetas que criam para si e que lhe são impostas de forma a sobreviver. A voluntária, o tributo, a amante condenada, a sobrevivente revoltosa, a rapariga tola apaixonada, a grávida sofrida, o símbolo da revolução.  Os papéis que deve representar para uma audiência insaciável.

Após esta pequena reflexão, podemos finalmente começar a tecer a ideia principal desta trilogia.

Esta não é a história de Katniss, o mimo-gaio.

Esta é a história da destruição de Katniss.

Esta é a história de destruição do Capitólio.

Portanto, é uma mútua destruição e por isso mesmo não existe um fim feliz… Não da maneira em que as muitas histórias românticas apresentam. Collins desconstrói tanto a protagonista que a única forma de tudo acabar é ela deixar de ser quem era. Pensem comigo… Katniss era um produto do Capitólio. Toda a sua existência, para bem ou para mal, dependiam de forma muito estreita ao estado distópico de Panem. Toda a sua identidade era o facto de ser aquela caçadora que alimenta a sua família quebrando as regras impostas pelo estado.

Em paralelo, O Capítólio nesta altura é um sistema assente em firmas bases de repressão e medo. Tudo encaixa e funciona como uma grande máquina bem oleada…. Até que Katniss começa a torcer o sistema.

Ela foi a primeira voluntária do distrito 12. Ela foi a primeira pessoa a sem dúvida desafiar o Capitólio de forma tão aberta, ao atirar a seta aos produtores, ao mostrar as bagas e quebrar a regra de que apenas um tributo poderia chegar ao fim com vida. Enquanto Katniss mantia-se à margem dos acontecimentos tudo se concentrava e funcionava como devia. Quando os dois colidem, é o início do fim.

Ambos sofrem com os acontecimentos da arena, ambos perdem-se aos poucos.

Katniss vive aos poucos e de forma oca sempre com os acontecimentos traumáticos presentes na sua mente. Começa a duvidar de si mesma, sofre com o peso das decisões que leva a seu cargo, é manipulada e deixa que isso aconteça porque acredita mesmo que algo pode mudar se ficar apática, ignorando que não há nada que possa fazer que segure o Capitólio à beira de uma revolta civil. O Capitólio que começa a ganhar ferrugem, perde peças, começa a rachar com a pressão.

Ao chegarmos ao último livro, no meio de uma guerra aberta em que o fim do sistema é apenas uma questão de dias, Katniss é apenas um vislumbre do que era. Novamente um peão em jogos políticos, sem poder nenhum nas decisões e condenada a ser apenas o rosto de um movimento com que não se identifica deixa de ser quem é. É engolida pela mágoa e pelas cicatrizes psicológicas profundas que sofre. Com o precipitar de eventos no fim que indicam que o ciclo se volta a repetir, Katniss faz o último sacrifício e mata Coin, acabando consigo mesma aos olhos dos outros. É condenada a um rótulo depreciativo e esquecida.

  A mútua destruição de que tinha falado. A Katniss não existe. O Capitólio também não.

E este não é um bom final?

Eu acredito que sim… Embora não saia incólume, sem a pressão de ser relembrada como o símbolo de uma revolta, Katniss pode encontrar paz afastada de tudo o que lhe trás mágoa. Ela finalmente encontra paz e equilíbrio no meio da natureza, como sempre expressou no desejo de fugir e se perder na floresta. Portanto, como pode não ser este o fim que ela merecia?

Aconselho sem dúvida à leitura desta trilogia. Espero que o vídeo que tenham feito não seja horrível e espero que o texto tenha feito sentido e peço perdão por qualquer problema de raciocínio. Partilhem os vossos pensamentos.

Que o Magnânimo GIP esteja convosco, L.T:Htlls

Advertisements

2 thoughts on “A Construção de Identidade em Panem

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s